América Latina adota cripto como resposta à desconfiança no sistema financeiro tradicional
Inflação galopante, bancos centralizados engessados e uma geração hiperconectada estão virando o jogo. Pagamentos em Bitcoin e stablecoins explodem na região - enquanto políticos ainda debatem regulamentação.
Motivos não faltam: remessas internacionais custam 3x menos via cripto, pequenos negócios escapam da asfixia burocrática e a população sub-bancarizada finalmente acessa serviços financeiros. Bancos centrais latinos reagem criando CBDCs, mas a descentralização já conquistou corações e carteiras.
Claro, os mesmos bancos que cobram taxas abusivas agora ’alertam’ sobre os riscos das criptomoedas. Ironia? Sem dúvida. Mas enquanto isso, El Salvador segue dando aula de adoção massiva - e o mercado responde com ATHs consecutivos.
A adoção de cripto cresceu de forma expressiva na América Latina no último ano. Ao contrário de outras regiões, a população da LATAM tem se mostrado mais interessada na promessa de “liberdade econômica” do que nas características especulativas dos ativos digitais.
Desenvolvimentos recentes, como a expansão do Binance Pay no Brasil e o pedido de licença operacional do Mercado Pago na Argentina, reforçam essa tendência. Em conversa com o BeInCrypto, representantes da CoinFlip, Bitcoin Argentina e Paybis explicaram como a instabilidade econômica tem impulsionado o avanço dos pagamentos em cripto na região.
Além disso, o mês de maio foi marcado por avanços relevantes na oferta de serviços cripto na América Latina. No fim de semana, o Mercado Pago — maior plataforma de pagamentos online da região — anunciou que solicitou uma licença bancária digital completa junto ao Banco Central da Argentina.
Contudo, com a licença, a empresa poderá oferecer uma gama mais ampla de serviços financeiros tradicionais, incluindo ferramentas de investimento mais avançadas, linhas de crédito e contas totalmente regulamentadas.
$MELI “Mercado Pago will apply for a banking license from the Central Bank of Argentina to expand its service offering within its 100% digital model. This decision is part of a regional strategy already underway in countries such as Brazil and Mexico”.
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América Latina amplia integração entre cripto e sistemas financeiros tradicionais
Essa iniciativa marca um avanço relevante na integração mais profunda do Mercado Pago em outro grande mercado latino-americano, expandindo sua atuação já consolidada no Brasil, México e Chile.
Embora a empresa já disponibilize serviços de pagamento com cripto em países onde atua, a obtenção de uma licença bancária na Argentina pode permitir a oferta desses serviços dentro de um sistema financeiro mais amplo e regulado.
Enquanto isso, o Binance Pay passou a operar integrado ao Pix, sistema de pagamento instantâneo amplamente adotado no Brasil. Essa ligação direta permite que usuários da plataforma convertam, de forma imediata, mais de 100 criptomoedas em reais para realizar pagamentos ou transferências com agilidade.
Ambos os avanços evidenciam a transição da América Latina em direção ao uso crescente de criptoativos, à medida que a população busca alternativas financeiras fora do sistema bancário tradicional.
Crypto isn’t just for holding anymore.
Now, it’s part of everyday payments in Brazil.
Find out how
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Por que a cripto é popular em economias em desenvolvimento
Diferente dos usuários em países desenvolvidos, que podem explorar criptoativos por curiosidade ou investimento, pessoas em nações em desenvolvimento frequentemente recorrem a eles por necessidade, buscando maior estabilidade financeira.
“Muitas pessoas na região não estão apenas experimentando com cripto; elas precisam disso. Seja para evitar a desvalorização da moeda ou para enviar dinheiro através das fronteiras rapidamente e sem intermediários intermináveis, o cripto tem uma utilidade real aqui”, afirmou Daniel Polotsky, fundador da CoinFlip.
Informações levantadas pela Paybis ilustram como a demanda está diretamente ligada a necessidades reais.
“A Argentina, afetada pela inflação, desenvolveu uma economia baseada em stablecoins que sustenta o comércio e o consumo cotidiano. No México, o cripto é usado para baratear remessas — a exchange Bitso, sozinha, processa cerca de 10% de todas as transferências entre os EUA e o México via stablecoins. A decisão de El Salvador, em 2021, de tornar o Bitcoin moeda legal ainda serve de base para um ecossistema de carteiras Lightning e turismo voltado ao BTC. Até mesmo mercados menores, como o Uruguai, mostram valores médios elevados por transação (US$ 246), sinalizando uma adoção discreta, mas ampla”, explicou Konstantins Vasilenko, cofundador e diretor de desenvolvimento de negócios da Paybis, ao BeInCrypto.
Valores Médios de Transações em Cripto na América Latina. Fonte: Paybis.
No entanto, mais do que uma simples necessidade econômica, o que impulsiona muitos desses usuários é o desejo por empoderamento financeiro.
Confiança em declínio impulsiona alternativas digitais
Contudo, o crescimento do uso de criptoativos na América Latina reflete um desejo coletivo de autonomia e acesso a modelos financeiros alternativos.
“As instituições financeiras tradicionais em vários países latino-americanos não contam com históricos sólidos de estabilidade nem sempre atendem às necessidades da população. Décadas de inflação, fechamento de bancos, controles de capital e falta de opções de investimento corroem, ao longo do tempo, a confiança no sistema”, explicou Daniel Polotsky, fundador da CoinFlip. “Não surpreende que muitos busquem moedas digitais. Em muitos casos, existe uma desconfiança profunda no governo e na autoridade centralizada sobre o dinheiro.”
Diante dos desafios persistentes na região, os pagamentos em cripto tendem a se consolidar como alternativa segura.
A contínua batalha com sistemas centralizados
Manuel Ferrari, presidente da Bitcoin Argentina, utiliza regularmente criptoativos para realizar transferências financeiras, evitando os entraves do sistema bancário tradicional do país.
“Estive recentemente no Brasil e consegui reduzir de forma significativa os impostos que seriam aplicados se usasse o sistema financeiro argentino”, contou Ferrari ao BeInCrypto. “Passo por isso com frequência — meu filho estuda fora, e sempre que preciso enviar dinheiro ou fazer pagamentos, uso o Bitcoin. A via tradicional seria quase inviável e excessivamente cara.”
Segundo Ferrari, as instituições tradicionais veem os criptoativos como ameaça, o que motiva ações restritivas.
“Acredito que esse cenário continuará. Os estados dificilmente vão reduzir impostos sobre transferências tradicionais. Pelo contrário, tentarão tributar e regular tudo que envolva blockchain, cripto e, futuramente, Bitcoin. Por isso, penso que os mercados centralizados estarão cada vez mais sujeitos a taxação e controle”, declarou.
Com o avanço da adoção, os sistemas tradicionais enfrentarão um dilema: adaptar-se ou perder relevância.
Bancos tradicionais vão se adaptar à ascensão da cripto?
Em países marcados por desigualdade econômica, bancos tradicionais costumam impor exigências elevadas, como grande volume de documentos e tarifas altas.
A ausência de agências em áreas remotas agrava a exclusão, deixando milhões sem acesso a serviços financeiros básicos.
No entanto, diante da expansão das criptomoedas, os sistemas convencionais precisarão evoluir.
“Isso deve forçar as instituições tradicionais a inovar ou ficar para trás. Quando milhões de pessoas realizam transações entre si sem passar por bancos, o alerta está dado. Vamos ver mais colaborações entre fintechs e bancos, além do surgimento de modelos híbridos, que unam o sistema financeiro tradicional à infraestrutura blockchain”, apontou Polotsky.
Em mercados com forte demanda por cripto, a adaptação terá que ser mais rápida. Algumas instituições já iniciaram esse movimento.
“O Banco Central do Brasil estima que 90% do valor movimentado on-chain no país envolve stablecoins como meio de pagamento. Com isso, as instituições estão reagindo. O BTG Pactual, por exemplo, lançou o BTG Dol, uma moeda digital lastreada no dólar e integrada ao seu aplicativo de corretagem e plataforma móvel — algo impensável há poucos anos”, afirmou Konstantins Vasilenko, da Paybis, ao BeInCrypto.
Enquanto isso, o avanço dos pagamentos em cripto segue acelerado em toda a América Latina.
O artigo Por que pagamentos em cripto são tendência na América Latina? foi visto pela primeira vez em BeInCrypto Brasil.