Circle supera Tether: como Solana e Trump viraram o jogo das stablecoins
O impensável aconteceu. Circle, a emissora da USDC, acaba de ultrapassar a Tether no volume de transações diárias. Um movimento sísmico que reescreve as regras do mercado de stablecoins.
Solana: A catapulta tecnológica
Velocidade brutal e custos insignificantes. A rede de Solana se tornou o motor por trás da ascensão meteórica da USDC. Enquanto outras blockchains engasgam com taxas exorbitantes, a Solana processa transações da Circle por frações de centavo. Desenvolvedores e usuários migraram em massa, atraídos pela eficiência que outras prometem, mas só a Solana entrega.
O fator Trump: política vira alavanca
Uma mudança regulatória inesperada durante a administração Trump abriu as comportas. A aprovação do 'Financial Stability Act' (FSA) criou um caminho regulatório claro para stablecoins como a USDC, enquanto colocava empecilhos para modelos opacos. De repente, a transparência e a conformidade da Circle deixaram de ser um custo e viraram seu maior trunfo competitivo. Bancos tradicionais, antes reticentes, agora correm para integrar a USDC – afinal, nada fala mais alto do que o aval de Washington.
O novo equilíbrio de poder
O domínio da Tether, por anos considerado inabalável, mostrou suas fissuras. A combinação de uma infraestrutura técnica superior e um cenário regulatório favorável provou ser imbatível. O mercado votou com seus wallets, e o veredito foi claro: eficiência e legitimidade venceram. O futuro das finanças on-chain nunca pareceu tão… estável. Pelo menos até o próximo tuíte de um bilionário ou uma mudança de humor do Congresso – porque no fim, crypto ainda se move mais por manchetes do que por fundamentos.
O USDC da Circle superou o USDT da Tether em volume anual de transações pela primeira vez, representando uma mudança histórica no cenário das stablecoins.
Durante uma década, o USDT permaneceu soberano como o principal nome entre as stablecoins. Ele ainda mantém um valor de mercado de US$ 187 bilhões — cerca de 2,5 vezes o valor de mercado de US$ 75 bilhões do USDC. Entretanto, 2025 trouxe outro panorama: a stablecoin menor agora movimenta mais capital.
USDC lidera com 39%
Segundo dados da Artemis Analytics, o USDC processou US$ 18,3 trilhões em transferências em 2025, enquanto o USDT movimentou US$ 13,2 trilhões — diferença de 39%.
O indicador Artemis Stablecoin Transfer Volume exclui transações de bots de MEV e transferências internas de exchanges, focando na atividade orgânica na blockchain. Assim, estima-se o teto para pagamentos reais e uso do DeFi, e não apenas o volume bruto, muitas vezes inflado por operações automatizadas. Em resumo, contam pagamentos cotidianos, transferências entre pessoas e operações em DeFi; negociações via bots ou movimentações internas de carteiras de exchange não entram no cálculo.
Por que o USDC se destacou
A diferença decorre de quatro fatores: operacionalização do DeFi, geografia das transações, eventos inesperados e mudanças regulatórias.
1. Volume negociado em DeFi
Especialistas apontam que a principal razão para a diferença está no uso distinto de cada stablecoin. O USDC predomina em plataformas de finanças descentralizadas, onde investidores alternam operações com frequência. O mesmo dólar circula várias vezes em protocolos de empréstimo e swaps em DEX. O USDT, por sua vez, atua mais como reserva de valor e meio de pagamento — investidores tendem a mantê-lo em carteiras ao invés de movimentá-lo constantemente.
2. O fator Solana
O crescimento expressivo do DeFi em Solana impulsionou o USDC. A stablecoin já representa mais de 70% de todas as stablecoins na rede, enquanto o USDT permanece concentrado na Tron. Apenas no primeiro trimestre de 2025, o total de stablecoins em Solana saltou de US$ 5,2 bilhões para US$ 11,7 bilhões — aumento de 125%, impulsionado quase exclusivamente por ingressos do USDC.
3. A ironia do token Trump
O lançamento da memecoin TRUMP em janeiro de 2025 acelerou de forma inesperada a adoção do USDC. O principal pool de liquidez do token na Meteora DEX tem paridade com o USDC, não com o USDT. Isso fez com que investidores interessados em TRUMP tivessem de adquirir USDC, criando uma demanda que se espalhou pelo ecossistema DeFi em Solana.
A ironia é que a própria família Trump lançou sua stablecoin, a USD1, através da World Liberty Financial em março. Mesmo assim, o token TRUMP associado à família acabou impulsionando a concorrente.
4. Incentivos regulatórios
A aprovação do Genius Act nos EUA em julho estabeleceu diretrizes legais para emissores de stablecoins. Analistas do setor destacam que o compromisso do USDC com conformidade regulatória e transparência das reservas favoreceu a stablecoin sob o novo marco. Na Europa, a adesão do USDC às regras do MiCA lhe garantiu vantagem enquanto várias exchanges enfrentam pressão para retirar USDT de circulação.
Maré em alta
O avanço do USDC contribuiu para um recorde de movimentação em stablecoins em geral. O volume total de transações atingiu US$ 33 trilhões em 2025, alta de 72% em comparação a 2024. Só no quarto trimestre foram movimentados US$ 11 trilhões, diante de US$ 8,8 trilhões no trimestre anterior.
A Bloomberg Intelligence prevê que o fluxo de pagamentos com stablecoins pode alcançar US$ 56 trilhões até 2030, colocando o setor como um dos principais meios de pagamento global, ao lado das redes tradicionais.
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