Europa pode ultrapassar os EUA na corrida das stablecoins? CEO da Bitget dá a opinião definitiva
A Europa está prestes a virar o jogo na disputa global por stablecoins. Enquanto os EUA patinam em debates regulatórios, o Velho Continente acelera com regras claras—e isso pode mudar tudo.
O Jogo das Regras
O MiCA (Regulamento de Mercados de Criptoativos da UE) não é apenas mais uma lei. É um convite aberto para emissores de stablecoins, oferecendo um caminho direto para operar em 27 países com uma única licença. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, as empresas ainda navegam por um labirinto de agências estaduais e federais—um processo que, convenhamos, muitas vezes parece mais projetado para gerar taxas de advogado do que inovação financeira.
Vantagem do Primeiro Movedor
A clareza atrai capital. Grandes players do setor já estão mirando a Europa como base para suas operações globais de stablecoins, antecipando que a estabilidade regulatória vencerá a incerteza. Essa migração de expertise e liquidez pode criar um efeito de rede: mais projetos atraem mais usuários, que por sua vez atraem mais inovação.
O Fator de Confiança Institucional
Para bancos e grandes investidores, a previsibilidade tem um valor inestimável. O arcabouço europeu oferece exatamente isso—um manual de instruções para operar no mercado de cripto sem surpresas desagradáveis. Essa confiança pode desbloquear trilhões em capital institucional que ainda hesita em entrar no jogo.
Não é uma corrida de velocidade, mas de resistência. A Europa pode não ter inventado a inovação financeira disruptiva, mas está construindo os trilhos sobre os quais ela vai trafegar. E no longo prazo, os trilhos bem construídos sempre vencem a corrida contra os terrenos acidentados.
As stablecoins dos EUA dominam 99% do mercado global. A China avança com o e-CNY. A Europa, apoiada pelo MiCA e pelo primeiro stablecoin em euro regulamentado pela BaFin, o EURAU, quer fechar a lacuna. Mas será que pode se mover rápido o suficiente?
O BeInCrypto conversou com Gracy Chen, CEO da Bitget, sobre as forças da Europa, seus desafios regulatórios e se a UE ainda pode desempenhar um papel de liderança em finanças digitais.
Europa vs. EUA: dois modelos concorrentes
BeInCrypto: Como você avalia a posição da Europa em relação aos EUA e Ásia?
Gracy Chen: A Europa está ancorada no MiCA, que oferece um quadro jurídico unificado, mas exige um grande ônus de conformidade. Os emissores precisam manter reservas completas, possuir capital substancial e obter uma licença EMI. Isso protege os usuários, mas eleva as barreiras de entrada e desacelera o crescimento.
Por outro lado, ela disse, o US GENIUS Act adota uma abordagem mais leve e voltada para inovação. Isso permitiu que emissores privados como Circle e Tether escalassem rapidamente, integrando USDC e USDT nas redes Visa e Mastercard.
Enquanto isso, a Ásia permanece focada em CBDCs, com stablecoins privadas ainda desempenhando um papel limitado.
O MiCA é suficiente para impulsionar a inovação?
BeInCrypto: O MiCA promove a inovação, ou a Europa precisa de mais flexibilidade?
Chen: O MiCA é uma base sólida, mas a Europa precisa de três ajustes: autorização mais rápida para CASPs e emissores, apoio mais forte para modelos de reserva multibancária como o EURAU, e implementação harmonizada em todos os estados membros.
Sem essas mudanças, a Europa corre o risco de fragmentação regulatória e adoção mais lenta.
EURAU e a soberania europeia
BeInCrypto: O que significa o lançamento do EURAU para a Europa?
Chen: EURAU é um passo crucial. Como o primeiro ativo cripto em euro regulamentado pela BaFin na Alemanha, oferece uma alternativa em conformidade aos stablecoins em USD e fortalece a soberania monetária da Europa. A clareza regulatória, ela acrescentou, é o gatilho para a adoção institucional e casos de uso de pagamentos transfronteiriços.
O que a Europa deve fazer para se manter competitiva
BeInCrypto: Quais são as etapas mais urgentes para a UE?
Chen: A Europa deve passar da clareza política para a prontidão operacional. A prioridade é acelerar os stablecoins em euro compatíveis com o MiCA, com integração nativa do SEPA Instant ou TIPS, permitindo rampas rápidas e de baixo custo.
A Europa também precisa de padrões de nível 2, passaporte para toda a UE, e regras explícitas para produtos com rendimento, como T-bills tokenizados — uma área onde a UE pode se diferenciar dos EUA.
A infraestrutura também é importante. A Europa precisa de rampas fiat unificadas, programas de aceitação de comerciantes, trilhos de interoperabilidade e um guia de supervisão comum.
Um sandbox dedicado a stablecoins e kits de ferramentas para desenvolvedores poderiam atrair novos emissores e fechar a lacuna de inovação.
Construindo confiança: conformidade e tecnologia
BeInCrypto: O que constrói confiança nos stablecoins europeus?
Chen: Transparência e reservas auditadas. As exigências de relatórios trimestrais do MiCA ajudam a prevenir a opacidade que levou ao colapso do TerraUSD.
A integração obrigatória de AML/KYC e contratos inteligentes auditados e seguros fornecem segurança adicional para instituições e usuários de varejo.
A Europa se tornará um líder em stablecoins?
BeInCrypto: A Europa pode competir nos próximos 3–5 anos?
Chen: A Europa pode se tornar uma jogadora respeitável, mas é improvável que supere os EUA, que já controlam quase todo o mercado por meio de ecossistemas do setor privado maduros. A vantagem da Europa está na clareza regulatória — mas ela deve acelerar a inovação para transformar esse quadro em uma adoção real.
A regulamentação dá à Europa uma vantagem — a inovação decidirá o restante
A Europa tem o que outras regiões não têm: um quadro regulatório completo e unificado. Mas apenas as regras não fecharão uma lacuna de 99% no mercado.
Como alerta Gracy Chen, a UE precisa combinar o MiCA com velocidade, infraestrutura e incentivos. Se isso for suficiente para desafiar a dominância dos EUA, permanece o principal teste da Europa — e a resposta virá rapidamente.
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